A China pediu formalmente para participar das consultas abertas pelo Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra as tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. O movimento amplia a dimensão da disputa comercial entre Brasília e Washington e pode fortalecer a posição brasileira nas negociações.

O pedido foi protocolado pela delegação chinesa na OMC. Pequim afirma ter “interesse comercial substancial” no processo, argumentando que as medidas tarifárias dos Estados Unidos também afetam as condições de concorrência dos produtos chineses vendidos no mercado americano.

O Brasil acionou a OMC no fim de julho para contestar as sobretaxas aplicadas pelo governo do presidente Donald Trump. As tarifas específicas contra produtos brasileiros podem chegar a 37,5%, considerando uma sobretaxa de 25% e outra de 12,5% relacionada às acusações americanas envolvendo trabalho forçado.

EUA aceitaram discutir a reclamação brasileira

Washington já aceitou o pedido brasileiro para a realização de consultas dentro da OMC. Essa é a primeira etapa formal do processo de solução de controvérsias da organização.

As consultas têm como objetivo buscar uma solução negociada para o conflito. Caso não haja acordo, o Brasil poderá solicitar a abertura de um painel para analisar a legalidade das medidas adotadas pelos Estados Unidos.

A participação da China, entretanto, ainda depende da concordância dos dois países diretamente envolvidos na disputa: Brasil e Estados Unidos.

China também é afetada pelo tarifaço

No documento apresentado à OMC, o governo chinês argumenta que as tarifas americanas prejudicam as exportações do país e alteram as condições de competição no mercado dos Estados Unidos.

A movimentação ocorre em meio a uma ampla disputa comercial entre Washington e Pequim. A China já enfrenta tarifas americanas elevadas e, agora, busca participar de uma discussão que envolve outro importante parceiro comercial dos Estados Unidos.

Para o Brasil, a entrada chinesa pode ampliar a pressão diplomática sobre Washington, embora não represente uma garantia de mudança nas tarifas.

Brasil enfrenta perda de competitividade

As novas barreiras comerciais já começam a afetar as exportações brasileiras para os Estados Unidos.

Segundo levantamento da Amcham Brasil, as vendas brasileiras ao mercado americano recuaram 12,2% entre janeiro e julho de 2026, para US$ 21 bilhões. Entre os produtos mais atingidos pelas sobretaxas estão sebo bovino, madeira, portas, fumo, granito, torneiras e sucos.

A tarifa efetiva média sobre produtos brasileiros também aumentou, enquanto a de concorrentes de outros países caiu. O cenário reduz a competitividade das empresas brasileiras diante de fornecedores estrangeiros.

Governo brasileiro também iniciou processo de reciprocidade

Além da ação na OMC, o governo brasileiro acionou oficialmente, nesta semana, o mecanismo previsto na Lei de Reciprocidade Econômica.

A medida abre caminho para possíveis contramedidas contra os Estados Unidos, mas não significa que o Brasil vá impor imediatamente novas tarifas. O governo tem destacado que a prioridade é utilizar o instrumento como mecanismo de negociação e pressão diplomática.

Especialistas avaliam que uma escalada tarifária poderia trazer efeitos negativos para os dois lados, inclusive com aumento de custos para empresas e consumidores brasileiros. Por isso, a tendência é que o governo tente combinar a pressão jurídica na OMC com negociações diretas com Washington.

Processo na OMC pode ser demorado

Caso as consultas não resultem em acordo, o Brasil poderá pedir a instalação de um painel para analisar a disputa.

O processo, porém, pode levar meses ou até anos. Além disso, o sistema de solução de controvérsias da OMC enfrenta limitações desde 2019, quando o Órgão de Apelação ficou sem condições de funcionar plenamente devido ao bloqueio de novas nomeações de árbitros pelos Estados Unidos.

Mesmo com essas dificuldades, a estratégia permite ao Brasil questionar formalmente as medidas americanas dentro das regras do comércio internacional.

A participação da China acrescenta um novo elemento à disputa e coloca Brasil e Pequim, ainda que por interesses próprios, em uma frente comum de contestação às políticas tarifárias de Washington.