A crise climática começa a influenciar não apenas a ocorrência de eventos extremos, mas também a forma como as cidades são ocupadas. Com o aumento do risco de enchentes, deslizamentos, ondas de calor e outros fenômenos, regiões consideradas mais seguras podem se tornar mais valorizadas e, consequentemente, mais caras para morar.
Esse processo é chamado de gentrificação climática e pode provocar o deslocamento de famílias de menor renda para áreas mais baratas, que muitas vezes apresentam justamente maior exposição a riscos ambientais e menor oferta de infraestrutura.
O alerta foi apresentado em reportagem do R7, que ouviu especialistas sobre os efeitos da crise climática no mercado imobiliário. Em Porto Alegre, por exemplo, os aluguéis tiveram alta média de 25% após as enchentes de 2024, segundo o Instituto Pólis. O aumento, entretanto, não ocorreu de maneira uniforme pela cidade. Enquanto imóveis em regiões mais protegidas se valorizaram, áreas sujeitas a alagamentos sofreram desvalorização.
Áreas seguras ficam mais valorizadas
De acordo com Henrique Frota, diretor-executivo do Instituto Pólis, a crise climática provoca uma espécie de redistribuição dos valores imobiliários dentro das cidades.
Regiões com melhor infraestrutura, menor exposição a enchentes e maior capacidade de resposta a emergências passam a ser vistas como mais atrativas. Com isso, aumenta a procura por imóveis nesses locais e os preços tendem a acompanhar essa valorização.
O problema aparece quando famílias que antes conseguiam pagar pelo aluguel nessas áreas deixam de ter condições financeiras para permanecer no bairro.
A alternativa, muitas vezes, é buscar imóveis em regiões periféricas ou menos estruturadas. Nesses locais, porém, podem existir riscos maiores de alagamentos, deslizamentos e outros impactos associados a eventos climáticos extremos.
Deslocamento aumenta desigualdade
O fenômeno cria um ciclo de vulnerabilidade: quem possui maior poder aquisitivo consegue pagar pela moradia em áreas consideradas mais seguras, enquanto famílias pobres acabam concentradas em locais mais expostos aos riscos.
Além da possibilidade de sofrer diretamente com desastres, esses moradores podem enfrentar dificuldades para acessar transporte público, escolas, unidades de saúde e oportunidades de emprego.
O problema também pode aumentar o tempo e o custo dos deslocamentos diários, afetando a renda das famílias.
Segundo o Instituto Pólis, a chegada repentina de moradores a áreas periféricas também pode pressionar uma infraestrutura urbana que já é insuficiente.
Racismo ambiental agrava o problema
Especialistas ouvidos pelo R7 relacionam a gentrificação climática ao chamado racismo ambiental, conceito utilizado para descrever a distribuição desigual dos impactos ambientais entre diferentes grupos sociais e raciais.
Thaynah Gutierrez, secretária-executiva da Rede por Adaptação Antirracista, afirma que populações de menor renda e comunidades negras são frequentemente direcionadas para regiões com menos saneamento, arborização e serviços públicos.
A falta de áreas verdes também contribui para temperaturas mais elevadas nas periferias, especialmente durante períodos de calor intenso.
Nesse cenário, investimentos públicos ou privados destinados à recuperação e valorização de determinadas regiões podem acabar produzindo um efeito contrário para os moradores originais: a valorização imobiliária aumenta os custos e pode provocar sua saída.
El Niño pode aumentar os riscos
A discussão ganha força diante da previsão de impactos associados ao El Niño, fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico e capaz de alterar os padrões de chuva e temperatura.
Material apresentado pelo governo federal em junho aponta que o fenômeno pode aumentar a ocorrência de eventos extremos e recomenda medidas como atualização de mapas de áreas de risco, revisão de planos de contingência e preparação das equipes de Defesa Civil.
A meteorologista Andrea Ramos explicou ao R7 que os efeitos não são iguais em todo o território brasileiro. Enquanto determinadas áreas podem registrar aumento das chuvas, outras podem enfrentar períodos mais secos e temperaturas elevadas.
Problema também exige planejamento urbano
O avanço dos riscos climáticos coloca novos desafios para governos municipais. A adaptação das cidades não envolve apenas obras emergenciais depois de enchentes ou deslizamentos, mas também planejamento para impedir que populações vulneráveis sejam deslocadas para locais ainda mais perigosos.
Mapear áreas de risco, ampliar o saneamento, aumentar a arborização, melhorar o transporte público e criar políticas habitacionais são algumas das medidas apontadas como necessárias para reduzir a desigualdade diante das mudanças climáticas.
Estudos do governo federal mostram que os impactos climáticos já são considerados relevantes para diferentes tipos de infraestrutura brasileira e tendem a se agravar em determinados cenários futuros.
No fim, a questão deixa de ser apenas onde é mais barato morar e passa a envolver uma pergunta cada vez mais importante: quem terá condições de pagar para viver em uma área segura diante das mudanças climáticas?
