Uma nova ferramenta de atendimento às mulheres vítimas de violência começa a ganhar destaque no país ao permitir que denúncias sejam registradas de forma digital, sem que a vítima precise se deslocar imediatamente até uma unidade policial.
A Delegacia Especial de Atendimento à Mulher Digital (Deam Digital), implantada pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, funciona 24 horas por dia e possibilita o registro de boletim de ocorrência, a solicitação de medidas protetivas de urgência e o encaminhamento para exame de corpo de delito.
Desde o início das atividades, em março deste ano, a unidade virtual já registrou 1.040 casos, segundo informações divulgadas pela Polícia Civil fluminense. Depois da análise inicial feita pela equipe de plantão, o procedimento é encaminhado para a delegacia responsável pela área onde a violência ocorreu, que passa a conduzir a investigação.
A proposta chama atenção por atacar uma das principais dificuldades enfrentadas por mulheres em situação de violência: o acesso rápido à rede de proteção.
Tecnologia pode reduzir barreiras para as vítimas
Em muitos casos, denunciar significa deixar temporariamente o ambiente onde a vítima está, enfrentar deslocamentos, procurar uma unidade policial e, em determinadas situações, ficar exposta ao agressor durante esse processo.
A possibilidade de iniciar o atendimento pela internet pode representar uma alternativa especialmente importante para mulheres que estão sob vigilância, ameaças ou controle do companheiro ou ex-companheiro.
A ferramenta, no entanto, não substitui o atendimento presencial em situações de emergência. Em casos de flagrante ou quando há risco imediato à vida, a orientação continua sendo acionar a Polícia Militar pelo 190 ou procurar diretamente uma unidade policial.
E o que isso representa para Alagoas?
A experiência do Rio de Janeiro também coloca em discussão a necessidade de ampliar e modernizar os mecanismos de proteção às mulheres em Alagoas.
O estado já dispõe de estruturas específicas de atendimento e canais digitais dentro da área de Segurança Pública. A Secretaria de Segurança Pública de Alagoas mantém, entre seus serviços, a Delegacia Virtual e o programa Mulher Segura, enquanto o Tribunal de Justiça disponibiliza a estrutura da Casa da Mulher Alagoana e dos juizados especializados.
O debate ganha ainda mais relevância diante da demanda por medidas protetivas. Dados divulgados pelo Tribunal de Justiça de Alagoas apontam que mais de 1.200 medidas protetivas foram concedidas em Maceió em 2026, até o período analisado em julho. O número representou crescimento de 43% em relação ao mesmo intervalo do ano anterior.
Somente o 1º Juizado da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher concedeu 616 medidas entre janeiro e 22 de julho, quase o dobro das 312 registradas no mesmo período de 2025.
Os números mostram que existe uma procura significativa pela rede de proteção e reforçam a importância de mecanismos que tornem o primeiro contato com o poder público mais rápido e acessível.
Procura por ajuda cresce em todo o país
O cenário nacional também demonstra a dimensão do problema.
O Ligue 180, serviço federal de atendimento às mulheres, registrou 1.035.647 atendimentos entre janeiro e julho de 2026, alta de 90,8% na comparação com o mesmo período do ano passado.
Entre os sete primeiros meses do ano, foram contabilizadas 98.705 denúncias de violência de gênero, crescimento de 15% em relação ao mesmo período de 2025.
A violência psicológica aparece entre as principais formas de violência relatadas, seguida por violência doméstica, física, moral e patrimonial.
Para o Ministério das Mulheres, o aumento também está relacionado à maior procura por informações e ao conhecimento da população sobre os canais disponíveis para buscar ajuda.
Modelo pode abrir discussão sobre atendimento digital em Alagoas
A experiência fluminense pode servir como referência para outros estados, inclusive Alagoas, principalmente na integração entre registro eletrônico, Polícia Civil, Judiciário e serviços de proteção.
Um sistema que permita iniciar a denúncia remotamente poderia ser especialmente relevante para mulheres que vivem em municípios onde o acesso a uma delegacia especializada exige deslocamento para outra cidade.
A tecnologia, porém, precisa estar acompanhada de estrutura policial, equipes capacitadas, atendimento humanizado e resposta rápida às solicitações de proteção.
A digitalização não elimina a necessidade de uma rede presencial. Pelo contrário: pode funcionar como uma porta de entrada mais rápida para que a vítima consiga chegar aos serviços de segurança, Justiça, saúde e assistência social.
Proteção precisa chegar antes da violência se agravar
A discussão ganha força em um momento em que o país busca aperfeiçoar os mecanismos de prevenção à violência contra a mulher.
Recentemente, o Supremo Tribunal Federal ampliou a interpretação da Lei Maria da Penha ao reconhecer que a proteção não depende necessariamente da existência de vínculo familiar, afetivo ou íntimo entre a vítima e o agressor. A decisão também alcança situações de violência de gênero praticadas em diferentes contextos.
Em Alagoas, a discussão já tem reflexos concretos. Nesta semana, a Justiça concedeu medida protetiva à prefeita de Barra de Santo Antônio, Lívia Carla, em um caso envolvendo violência política de gênero, após pedido apresentado pela Polícia Civil.
O episódio mostra que a violência contra a mulher não se limita ao ambiente doméstico e pode ocorrer em diferentes espaços da sociedade.
Alagoas Alerta
A experiência da Delegacia Digital da Mulher no Rio de Janeiro coloca uma questão importante para os estados brasileiros: como usar a tecnologia para fazer com que uma mulher consiga pedir ajuda antes que a violência chegue a um estágio ainda mais grave?
Para Alagoas, onde a rede de proteção já conta com serviços especializados, a ampliação de ferramentas digitais pode representar mais uma alternativa para aproximar vítimas das autoridades e acelerar o acesso à proteção.
A tecnologia, neste caso, não substitui a polícia, a Justiça ou os serviços de assistência. Ela pode, porém, diminuir uma barreira que muitas vezes separa a vítima do primeiro pedido de socorro: a dificuldade de chegar até o atendimento.
Em caso de emergência, a orientação é ligar para o 190. O Ligue 180 também oferece atendimento gratuito, 24 horas por dia, para orientação e denúncias relacionadas à violência contra a mulher.
