A violência contra pessoas idosas, muitas vezes escondida dentro de casa e praticada por pessoas próximas, acende um alerta em Alagoas. Dados reunidos pelo Tribunal de Justiça de Alagoas (TJAL), a partir de informações do Disque 100 e do Centro de Direitos da Pessoa Idosa (CDPI), mostram que o problema tem dimensão significativa no Estado e reforçam a importância de reconhecer os sinais de abuso e saber onde buscar ajuda.
Somente no primeiro semestre de 2026, o Disque 100 registrou 1.003 denúncias envolvendo pessoas idosas em Alagoas, acompanhadas de 8.870 violações de direitos. O volume de denúncias corresponde a mais de 63% de tudo o que havia sido registrado durante 2025.
No ano passado, foram contabilizadas 1.577 denúncias relacionadas à população idosa no Estado, contra 1.503 em 2024 — crescimento de 4,9%. O número de violações identificadas nessas denúncias passou de 11.429 para 12.922, uma alta de 13,1%.
Os dados ajudam a dimensionar uma realidade que nem sempre chega às autoridades. Entre 2023 e 2026, o Centro de Direitos da Pessoa Idosa recebeu 567 casos de violência ou violação de direitos e realizou 4.828 atendimentos, incluindo orientações, encaminhamentos e articulação com outros órgãos da rede de proteção.
Violência não é apenas agressão física
Quando se fala em violência contra a pessoa idosa, a agressão física é apenas uma das formas de violação. O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania alerta para situações de violência psicológica, patrimonial ou financeira, negligência, abandono e outras formas de desrespeito aos direitos garantidos pelo Estatuto da Pessoa Idosa.
Em Alagoas, os registros do CDPI apontam a violência psicológica/verbal e a patrimonial/financeira entre as ocorrências mais frequentes, com 191 casos cada. Na sequência aparecem negligência ou abandono, com 144 registros, e violência física, com 130.
A violência patrimonial merece atenção especial. Ela pode ocorrer quando dinheiro, aposentadoria, cartão bancário, documentos ou outros bens da pessoa idosa são controlados, retidos, utilizados ou apropriados sem autorização. O problema também pode aparecer por meio de manipulação, chantagem ou pressão para a realização de empréstimos e outras operações financeiras.
Quem pode denunciar?
A denúncia não precisa ser feita exclusivamente pela vítima. Familiares, vizinhos, amigos, profissionais de saúde, cuidadores e qualquer pessoa que tenha conhecimento ou suspeita de uma violação podem procurar ajuda.
O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania reforça que não é necessário apresentar provas concretas para fazer uma denúncia pelo Disque 100. O canal recebe relatos e pode encaminhá-los aos órgãos responsáveis pela apuração e proteção da vítima.
Disque 100 funciona 24 horas
O principal canal nacional para esse tipo de situação é o Disque Direitos Humanos (Disque 100). O serviço é gratuito, funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana, incluindo feriados, e recebe denúncias de violações de direitos humanos.
Além da ligação para o número 100, o Ministério disponibiliza atendimento pelo WhatsApp (61) 99611-0100. O canal permite o envio de mensagens de texto, áudios, fotos e arquivos multimídia.
Em situações de emergência ou quando a violência está acontecendo naquele momento, também é importante acionar os serviços de segurança pública e emergência.
Em Alagoas, o Ministério Público Estadual mantém atuação na defesa dos direitos da pessoa idosa, enquanto a rede de proteção envolve diferentes órgãos e serviços públicos. O próprio MPAL disponibiliza canais de atendimento à sociedade e possui núcleo voltado à defesa dos direitos da pessoa idosa e da pessoa com deficiência.
Justiça de Alagoas amplia atenção à população idosa
O aumento dos registros ocorre justamente em um momento em que o Judiciário alagoano estrutura uma política específica para atender a população idosa.
Em julho deste ano, o TJAL instituiu o Grupo de Trabalho da Pessoa Idosa (GTPI), responsável por estruturar a Política Judiciária da Pessoa Idosa no âmbito do Tribunal. A iniciativa segue as diretrizes da Resolução nº 520/2023 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e prevê ações como capacitação de magistrados e servidores, facilitação do acesso à Justiça e fortalecimento da articulação com instituições que atuam na proteção dos idosos.
Segundo o próprio TJAL, o diagnóstico produzido em parceria com a Secretaria de Estado da Cidadania e da Pessoa com Deficiência (SECDEF) pretende servir de base para políticas públicas e ações voltadas à realidade alagoana.
O alerta também aparece nos homicídios
A violência contra a população idosa em Alagoas ultrapassa os casos de agressão, negligência e violência patrimonial.
Levantamento divulgado pela OAB Alagoas apontou 37 homicídios de pessoas idosas registrados no Estado em 2025. Quase 80% dos casos ocorreram em municípios do interior. Das vítimas, 34 eram homens e três eram mulheres.
Os números reforçam que a proteção da população com 60 anos ou mais exige uma rede articulada entre família, comunidade, serviços de assistência social, saúde, segurança pública, Ministério Público, Defensoria, Judiciário e demais órgãos responsáveis pela garantia de direitos.
Como identificar uma possível situação de violência
Mudanças repentinas no comportamento, medo excessivo de familiares ou cuidadores, isolamento, sinais de agressão, falta de cuidados básicos, desaparecimento de dinheiro ou documentos, movimentações financeiras incomuns e dificuldade de acesso da pessoa idosa ao próprio patrimônio podem ser sinais de alerta.
A orientação das autoridades é não ignorar uma suspeita. A denúncia pode ajudar a interromper uma situação de violência e permitir que os órgãos competentes avaliem o caso.
Se você suspeita que uma pessoa idosa esteja sofrendo violência, procure ajuda. O silêncio pode prolongar a violação.
