A possível intensificação do fenômeno El Niño no segundo semestre de 2026 colocou novamente o setor agrícola em estado de atenção. O cenário preocupa produtores e especialistas porque o fenômeno pode alterar o regime de chuvas e temperaturas em diferentes regiões do planeta justamente em um momento de pressão sobre o mercado internacional de fertilizantes.
A combinação de clima adverso e insumos mais caros pode aumentar os custos de produção e, dependendo do comportamento das safras, contribuir para a elevação dos preços de alimentos como arroz, café, trigo e outros produtos que fazem parte da rotina dos consumidores brasileiros.
Para Alagoas, os efeitos podem aparecer principalmente de forma indireta. O estado não está entre os principais produtores nacionais de algumas das culturas mais citadas nas projeções, mas depende de cadeias de abastecimento que conectam produtores, distribuidores, supermercados e consumidores de diferentes regiões do país.
Isso significa que uma eventual redução da oferta nacional ou internacional pode chegar ao consumidor alagoano por meio do aumento dos preços no atacado e no varejo.
Clima e fertilizantes formam combinação de risco
O El Niño é um fenômeno climático capaz de modificar os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do mundo. No Brasil, seus efeitos variam de acordo com a região e podem provocar condições mais secas em determinadas áreas e excesso de chuva em outras.
Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), havia, em maio, 82% de probabilidade de confirmação do fenômeno no segundo semestre de 2026, embora ainda existissem incertezas sobre sua intensidade. Órgãos como INPE, INMET, Funceme e CENSIPAM vêm acompanhando a evolução do cenário climático.
O problema é que possíveis impactos sobre as lavouras ocorrem em um momento de atenção no mercado de fertilizantes. A alta dos custos dos insumos pode reduzir a margem dos produtores e, em alguns casos, influenciar decisões sobre área plantada, aplicação de nutrientes e investimento na próxima safra.
A combinação pode se transformar em um problema para o mercado de alimentos caso uma eventual redução da produção coincida com estoques menores ou dificuldades de abastecimento.
Arroz, café e trigo entre os produtos monitorados
O arroz aparece entre os produtos que podem sofrer pressão em um cenário de menor oferta. Alterações climáticas em grandes regiões produtoras podem afetar o plantio e a colheita, influenciando os preços internacionais e, posteriormente, o mercado brasileiro.
O café também está no radar. A produção mundial é concentrada em países que podem sofrer impactos diferentes do El Niño, o que aumenta a preocupação com a volatilidade da oferta.
Já o trigo tem importância estratégica para o consumidor brasileiro por estar presente em produtos como pão, massas e farinha. Como o Brasil possui forte dependência das importações para complementar o abastecimento, mudanças no mercado internacional podem ter reflexos internos.
A pressão não necessariamente ocorre de forma imediata. O impacto de um evento climático sobre os preços depende de uma série de fatores, incluindo estoques, produção, demanda, câmbio, custos de transporte e políticas de exportação dos países produtores.
O que pode acontecer em Alagoas
Para os consumidores alagoanos, uma eventual alta nos preços pode ser percebida primeiro nos produtos que dependem de cadeias nacionais de distribuição.
Itens como arroz, farinha de trigo, café e derivados podem sofrer reajustes caso os custos aumentem na origem ou durante o transporte. O efeito pode ser maior para famílias de menor renda, que destinam uma parcela mais significativa do orçamento à alimentação.
Além do consumidor, produtores rurais de Alagoas também podem enfrentar dificuldades caso o custo dos fertilizantes e de outros insumos continue elevado.
A agricultura familiar, importante para o abastecimento de mercados locais e para a geração de renda no interior do estado, pode ser particularmente sensível a aumentos nos custos de produção. O impacto, porém, dependerá da cultura, da região e do grau de dependência de fertilizantes adquiridos no mercado.
O cenário climático também merece atenção. A atuação do El Niño no Nordeste não produz necessariamente o mesmo efeito observado no Sul do país, e as condições de chuva em Alagoas precisam ser acompanhadas por órgãos de meteorologia e defesa agropecuária.
Produtores podem enfrentar aumento dos custos
O fertilizante é um dos componentes importantes da estrutura de custos de diversas culturas. Quando o preço do insumo aumenta, o produtor precisa decidir entre absorver a despesa, reduzir o uso ou repassar parte do custo para o preço final.
A redução da aplicação, entretanto, pode comprometer a produtividade em determinadas culturas. Já o aumento dos preços ao consumidor depende de toda a cadeia produtiva e não apenas do custo do fertilizante.
É justamente essa combinação que preocupa o setor agrícola: se os custos subirem ao mesmo tempo em que o clima reduzir a produtividade, o mercado pode enfrentar uma oferta menor e preços mais elevados.
Análises recentes do setor apontam que os efeitos do El Niño podem atingir diferentes commodities agrícolas, enquanto estudos de conjuntura econômica também monitoram a evolução dos preços de fertilizantes no mercado brasileiro.
Repercussão no campo e no bolso
O alerta já repercute entre produtores e analistas do agronegócio, que acompanham com atenção a evolução das condições climáticas para a safra 2026/2027.
O temor não é apenas de uma eventual quebra de produção. A preocupação envolve também o aumento da volatilidade dos preços, que pode dificultar o planejamento dos produtores e elevar a incerteza para empresas que dependem de matérias-primas agrícolas.
Para o consumidor, a preocupação é que uma combinação de menor oferta e custos mais altos se traduza em alimentos mais caros nas prateleiras.
No caso de Alagoas, o impacto poderá ser sentido principalmente por meio dos preços praticados no comércio e dos custos enfrentados por produtores locais. O tamanho desse efeito, porém, dependerá da intensidade do El Niño, do comportamento das chuvas no estado e do desempenho das safras brasileiras e internacionais.
Cenário ainda é de monitoramento
Apesar dos alertas, especialistas ressaltam que não é possível afirmar neste momento que haverá uma disparada generalizada dos preços dos alimentos.
O El Niño ainda está sob monitoramento, e as previsões climáticas podem ser atualizadas nos próximos meses. Além disso, estoques, produtividade, importações e políticas comerciais podem ajudar a compensar eventuais perdas em determinadas regiões.
A principal recomendação para o setor agrícola é acompanhar as previsões e planejar a próxima safra levando em consideração os riscos climáticos e a evolução dos custos dos insumos.
Para os alagoanos, o cenário serve como um alerta antecipado. Caso o fenômeno climático provoque perdas significativas em grandes regiões produtoras e a crise dos fertilizantes continue pressionando os custos, o efeito pode ultrapassar as porteiras das fazendas e chegar à mesa dos consumidores.
Por enquanto, o cenário é de atenção e monitoramento, e não de uma alta generalizada já confirmada. A evolução do clima nos próximos meses será determinante para saber até que ponto o El Niño e o custo dos fertilizantes poderão influenciar a produção e os preços dos alimentos no Brasil e, consequentemente, em Alagoas.
