As enchentes e deslizamentos que atingiram o Nepal transformaram-se no primeiro grande teste de gestão para o governo do primeiro-ministro Balendra “Balen” Shah, que chegou ao poder após a onda de protestos liderada pela juventude conhecida como Geração Z, em 2025.

O desastre começou em 26 de agosto, quando o colapso de uma geleira na região do Himalaia, próxima à fronteira com a China, desencadeou uma enorme corrente de água, gelo, pedras e lama. A força da enxurrada destruiu estradas, pontes, casas e instalações de infraestrutura, além de atingir projetos hidrelétricos e comunidades inteiras.

Na atualização mais recente divulgada pelo governo nepalês, o número de mortos chegou a 939 pessoas, enquanto milhares continuam desaparecidas. Segundo o primeiro-ministro, mais de 11 mil pessoas já foram resgatadas nas áreas atingidas.

Resgate entra em fase crítica

Quase uma semana depois da tragédia, as equipes de emergência ampliaram as operações em regiões que permaneciam isoladas. Estradas destruídas e pontes levadas pela força da água dificultaram a chegada dos socorristas.

Um dos principais focos das equipes está nos projetos hidrelétricos atingidos pela avalanche de gelo, pedras e lama. Cerca de 600 trabalhadores ainda podem estar presos em diferentes instalações, enquanto aproximadamente 279 pessoas já foram retiradas de áreas afetadas, segundo informações divulgadas por Shah.

Equipes também conseguiram restabelecer parcialmente o acesso a Nuwakot, um dos distritos mais atingidos, permitindo a entrada de socorristas e a distribuição de ajuda humanitária.

Governo enfrenta cobrança por resposta

A dimensão da tragédia colocou o governo de Balendra Shah sob forte pressão.

O primeiro-ministro, que ganhou projeção nacional como prefeito de Katmandu e posteriormente chegou ao comando do país em meio à mobilização da juventude, agora precisa coordenar uma resposta emergencial de grande escala.

Críticos questionam a capacidade do novo governo de administrar uma crise dessa magnitude, especialmente diante das dificuldades de comunicação, acesso às áreas remotas e coordenação das operações de resgate. A avaliação é de que a resposta à catástrofe poderá influenciar a percepção da população sobre a capacidade administrativa da nova gestão.

Shah, por sua vez, reconheceu a dimensão das perdas e afirmou que o governo terá pela frente uma longa etapa de reconstrução.

“Milhares de cidadãos perderam suas casas, famílias, entes queridos e propriedades”, afirmou o primeiro-ministro em uma publicação nas redes sociais, segundo a Reuters. Ele destacou que a prioridade será auxiliar as vítimas e reconstruir as áreas destruídas.

Ajuda internacional chega ao país

A dimensão da tragédia provocou uma mobilização internacional.

Segundo o governo nepalês, mais de US$ 42 milhões em ajuda já foram destinados ao país após o desastre. China e Índia, países vizinhos do Nepal, também participam das operações de emergência.

A China enviou equipes para as regiões afetadas do lado tibetano da fronteira, enquanto Índia e Nepal trabalham na recuperação de acessos e no atendimento às comunidades isoladas.

Infraestrutura e energia foram fortemente atingidas

Além das perdas humanas, o desastre representa um duro golpe para a infraestrutura nepalesa.

Rodovias, pontes, linhas de transmissão e instalações de geração de energia foram danificadas. O setor hidrelétrico é particularmente importante para a economia do país, que utiliza seus rios e o relevo montanhoso para produzir energia e também possui projetos voltados à exportação para países vizinhos.

A destruição de instalações hidrelétricas aumenta os desafios do governo justamente em um momento em que o Nepal tenta ampliar sua capacidade de geração de energia e atrair investimentos.

Tragédia também reacende alerta climático

Especialistas e autoridades relacionam a crescente vulnerabilidade das regiões montanhosas do Himalaia às mudanças climáticas.

O aumento das temperaturas favorece o derretimento e a instabilidade das geleiras, elevando o risco de avalanches, deslizamentos e inundações repentinas. O episódio no Nepal também reforça os alertas sobre os chamados eventos extremos em cascata, nos quais o colapso de uma geleira pode desencadear uma sequência de desastres em áreas situadas quilômetros abaixo.

Um governo jovem diante de uma crise histórica

A catástrofe ocorre aproximadamente um ano depois dos protestos que levaram uma nova geração de eleitores às ruas do Nepal e ajudaram a mudar profundamente o cenário político do país.

Balendra Shah assumiu o governo com a promessa de romper com práticas tradicionais da política nepalesa e promover uma administração mais eficiente e conectada às demandas da população.

Agora, a capacidade de organizar os resgates, garantir assistência às vítimas e reconstruir as regiões destruídas será um dos principais indicadores para avaliar a força de sua administração.

O desafio não termina com o fim das operações de emergência. Para o governo, a reconstrução de estradas, pontes, moradias e usinas, além do atendimento às milhares de pessoas afetadas, deverá consumir recursos e exigir coordenação internacional durante meses.