O nível de endividamento das famílias brasileiras atingiu um novo recorde e passou a representar um dos principais pontos de atenção para a economia do país. Em julho, 82% das famílias declararam possuir algum tipo de dívida, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
O resultado supera os 81,6% registrados em junho e representa o maior percentual da série histórica da pesquisa, iniciada em 2015. O avanço ocorre em um momento em que o custo do crédito permanece elevado e os juros dificultam a reorganização das finanças de parte dos consumidores.
Embora endividamento e inadimplência sejam conceitos diferentes, a combinação dos dois indicadores preocupa. O consumidor pode ter parcelas e compromissos financeiros em dia e, ainda assim, estar altamente comprometido com dívidas. Quando os pagamentos começam a atrasar, o impacto sobre o orçamento se torna ainda maior.
Juros elevados aumentam pressão sobre o orçamento
O cenário de crédito caro é um dos fatores que ajudam a explicar a dificuldade das famílias para reduzir o volume de dívidas.
Em maio, dados divulgados pelo Banco Central apontavam que as taxas médias cobradas nas operações de crédito haviam alcançado níveis recordes. O custo elevado do dinheiro afeta tanto consumidores quanto empresas, encarecendo empréstimos, financiamentos e outras modalidades de crédito.
Na prática, quem precisa recorrer ao sistema financeiro encontra uma conta mais pesada. Para as famílias, isso pode significar maior parcela da renda comprometida com prestações. Para as empresas, o custo do capital pode reduzir investimentos, limitar estoques e aumentar a cautela na expansão dos negócios.
Inadimplência também permanece elevada
O quadro é agravado pelo número de brasileiros que já não conseguem manter os pagamentos em dia.
Dados da Serasa indicam que 82,8 milhões de pessoas estavam inadimplentes em 2026, número equivalente a 50,5% da população adulta. Os bancos e cartões de crédito aparecem entre os principais segmentos relacionados às dívidas negativadas.
O levantamento também mostra que a perda de renda e o desemprego continuam entre os motivos apontados pelos consumidores para a dificuldade de pagamento.
O problema, portanto, não está restrito à quantidade de pessoas que possuem dívidas. O tamanho do compromisso financeiro, o custo dos juros e a capacidade de geração de renda também determinam quanto tempo o consumidor levará para recuperar o equilíbrio.
Varejo sente os efeitos do crédito mais caro
O aumento do endividamento pode chegar rapidamente ao comércio.
Com uma parcela maior da renda direcionada para o pagamento de dívidas, sobra menos dinheiro para novas compras. O efeito tende a ser mais forte em produtos que dependem de financiamento ou parcelamento, como eletrodomésticos, móveis, eletrônicos e veículos.
O varejo passa, então, a enfrentar uma situação delicada: de um lado, precisa estimular as vendas; de outro, encontra consumidores mais cautelosos e com menor capacidade de assumir novas prestações.
Especialistas já apontaram que a combinação entre juros altos e inadimplência pode funcionar como um freio ao consumo e dificultar a recuperação mais consistente de setores ligados ao mercado interno.
Endividamento não significa necessariamente falta de renda
Um dos aspectos que chamam atenção no atual cenário é que o aumento do endividamento ocorre mesmo diante de indicadores positivos no mercado de trabalho.
A existência de renda e emprego, porém, não impede que uma família fique excessivamente comprometida. O avanço do custo de vida, o uso recorrente do crédito e as taxas cobradas nas operações financeiras podem fazer com que uma parcela crescente do salário seja destinada às dívidas.
Esse movimento cria um efeito de retroalimentação: o consumidor se endivida para manter o consumo ou cobrir despesas, compromete parte da renda futura e, posteriormente, pode precisar de novo crédito para fazer frente às contas.
Empresas também enfrentam cenário desafiador
A pressão não está restrita às famílias.
Empresas brasileiras também convivem com um ambiente de crédito caro e inadimplência elevada. Dados da Serasa Experian mostram que o país encerrou 2025 com 8,9 milhões de empresas inadimplentes, enquanto o total de dívidas negativadas chegou a R$ 213 bilhões.
Para os negócios, juros elevados aumentam o custo do capital de giro e podem dificultar investimentos, contratação de funcionários e expansão das operações.
Quando o consumidor reduz as compras e, ao mesmo tempo, o empresário enfrenta dificuldade para financiar sua atividade, o efeito pode atingir diferentes pontos da cadeia econômica.
O desafio para a economia
O cenário atual coloca o endividamento entre os fatores que podem limitar o ritmo de crescimento da economia brasileira.
O consumo das famílias tem peso importante na atividade econômica. Por isso, quando uma parcela elevada da população está comprometida com dívidas, a capacidade de sustentar novas compras diminui.
A preocupação aumenta quando o endividamento vem acompanhado de juros elevados e inadimplência. Nesse caso, a questão deixa de ser apenas financeira e passa a ter reflexos sobre o comércio, serviços, empresas e geração de atividade econômica.
A expectativa de redução dos juros pode aliviar parte dessa pressão no futuro, mas não elimina imediatamente o estoque de dívidas acumuladas. Para milhões de brasileiros, o desafio continua sendo renegociar compromissos, reduzir o custo financeiro e recuperar espaço no orçamento.
Enquanto isso, o recorde de 82% das famílias endividadas funciona como um sinal de alerta para o consumo e para os setores da economia que dependem diretamente da capacidade de compra dos brasileiros.
