Mais de 11 milhões de trabalhadores brasileiros estavam com depósitos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) em atraso até junho deste ano. O passivo acumulado pelas empresas chegou a R$ 12,6 bilhões, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

O número revela um problema que vai além de uma pendência contábil. O FGTS é um direito trabalhista criado para proteger o trabalhador em situações como demissão sem justa causa, além de possuir regras específicas para saque em casos previstos em lei. Quando a empresa deixa de fazer os depósitos corretamente, o trabalhador pode ser diretamente prejudicado justamente no momento em que mais precisa desse recurso.

O cenário também chama atenção pela evolução do problema. Em levantamento anterior, divulgado em setembro de 2025, eram aproximadamente 9,5 milhões de trabalhadores afetados, enquanto os débitos das empresas estavam na casa dos R$ 10 bilhões. Agora, os números subiram para 11 milhões de trabalhadores e R$ 12,6 bilhões em valores devidos.

Impacto também preocupa em Alagoas

Embora o levantamento nacional divulgado pelo MTE não apresente, nas informações disponíveis, um recorte atualizado com o número de trabalhadores alagoanos atingidos, o assunto ganha importância no estado em razão do elevado nível de endividamento da população.

Dados divulgados em maio apontaram que pouco mais de 47% da população adulta de Alagoas encerrou o primeiro trimestre de 2026 inadimplente, segundo levantamento da Serasa citado pela imprensa local. O quadro reforça a importância de preservar recursos trabalhistas que podem representar uma reserva financeira para famílias em momentos de dificuldade.

Na prática, um trabalhador que descobre que a empresa não está recolhendo o FGTS pode enfrentar dificuldades para ter acesso integral ao dinheiro quando ocorrer uma situação que permita o saque.

O problema não é apenas teórico em Alagoas. O Ministério Público do Trabalho no estado já atuou em casos envolvendo irregularidades no recolhimento do Fundo. Em uma ação contra a Usina Seresta, por exemplo, a Justiça determinou a regularização dos depósitos e o pagamento de R$ 500 mil por dano moral coletivo.

FGTS é patrimônio do trabalhador

Pelas regras do fundo, o empregador deve realizar mensalmente o depósito correspondente a 8% da remuneração do trabalhador em sua conta vinculada. O dinheiro não é entregue diretamente ao empregado durante o vínculo, mas permanece em uma conta individual destinada a situações previstas na legislação.

O atraso ou a ausência do recolhimento, portanto, não representa simplesmente uma dívida da empresa com o governo. Trata-se de um valor que deveria estar sendo destinado à conta do trabalhador.

Além da proteção em caso de demissão sem justa causa, os recursos podem ser utilizados em outras situações previstas em lei, incluindo determinadas modalidades de financiamento habitacional e aposentadoria.

Como o trabalhador pode verificar

O trabalhador pode acompanhar os depósitos realizados pelo empregador por meio do aplicativo FGTS, que permite consultar o saldo e verificar as movimentações da conta.

Caso identifique ausência de depósitos, é importante guardar documentos que comprovem o vínculo empregatício e procurar orientação para saber quais medidas podem ser adotadas para cobrar a regularização.

O governo também mantém o FGTS Digital, sistema criado para modernizar e unificar a arrecadação do Fundo e facilitar o acompanhamento das obrigações pelos empregadores.

Repercussão

A divulgação dos números ocorre em um momento em que o FGTS está novamente no centro das atenções dos trabalhadores. Em julho, o Conselho Curador aprovou a distribuição de R$ 13,04 bilhões do lucro do FGTS referente a 2025 para aproximadamente 138,2 milhões de trabalhadores que tinham saldo em contas vinculadas em 31 de dezembro daquele ano. O valor corresponde a 89% do resultado positivo registrado pelo fundo.

Enquanto milhões de brasileiros recebem a distribuição dos resultados do Fundo, outros milhões enfrentam uma situação oposta: têm valores que deveriam estar depositados mensalmente, mas permanecem pendentes por responsabilidade dos empregadores.

Para os trabalhadores alagoanos, o alerta ganha peso diante do quadro de inadimplência registrado no estado. A falta de recolhimento do FGTS pode comprometer uma reserva que, em momentos de demissão, aposentadoria ou outras situações previstas em lei, pode fazer diferença no orçamento familiar.

O Alagoas Alerta continuará acompanhando a divulgação de dados oficiais sobre o número de trabalhadores e empresas de Alagoas com pendências no FGTS.