Os Estados Unidos anunciaram nesta terça-feira (4) uma nova etapa da estratégia de combate ao narcotráfico e a organizações criminosas no Hemisfério Ocidental, com participação de países parceiros, entre eles o Brasil.

A iniciativa prevê a criação da Força-Tarefa Conjunta do Hemisfério Ocidental e a realização de exercícios militares multinacionais envolvendo outros 17 países. Segundo informações divulgadas pelo Comando Sul dos Estados Unidos, a articulação busca ampliar a cooperação regional no enfrentamento ao tráfico de drogas e a outras ameaças transnacionais.

As manobras militares estão previstas para ocorrer na região do Canal do Panamá, uma área considerada estratégica para o comércio e para a movimentação marítima internacional.

Brasil aparece entre os países parceiros

A participação brasileira ocorre dentro de um histórico de cooperação militar com os Estados Unidos e outros países do continente.

O Ministério da Defesa brasileiro destaca que exercícios multinacionais são utilizados pelas Forças Armadas para aprimorar a capacidade de atuação conjunta, troca de informações e interoperabilidade entre diferentes forças militares.

Em julho, Brasil e Estados Unidos também discutiram o combate ao narcotráfico durante uma reunião bilateral realizada no contexto da Conferência de Ministros da Defesa das Américas. O encontro contou com a participação do ministro da Defesa brasileiro, José Mucio Monteiro, e do então subsecretário de Defesa para Política dos EUA, Elbridge Colby.

A presença brasileira na nova articulação, portanto, ocorre em um cenário de aproximação na área de segurança, mas não significa, por si só, autorização para que tropas norte-americanas atuem no território nacional.

Exercícios serão realizados na região do Canal do Panamá

As atividades militares anunciadas pelos Estados Unidos têm como um dos focos o fortalecimento da capacidade de atuação conjunta entre os países participantes.

O Canal do Panamá possui importância estratégica para o comércio internacional por conectar os oceanos Atlântico e Pacífico. Exercícios realizados na região permitem treinamento em cenários que envolvem operações marítimas, segurança de rotas e coordenação entre forças de diferentes países.

A proposta também está inserida em uma estratégia norte-americana de ampliar a pressão contra organizações criminosas que atuam no tráfico internacional de drogas.

Operação contra narcotráfico ganha nova dimensão

A nova força-tarefa amplia uma estratégia que já vinha sendo conduzida pelos Estados Unidos por meio da chamada Operação Southern Spear (Lanças do Sul).

Segundo informações divulgadas pelo Comando Sul, a nova estrutura deverá aumentar a coordenação entre os países parceiros no combate a organizações criminosas e ameaças relacionadas ao narcotráfico.

O governo norte-americano também passou a utilizar o conceito de “narcoterrorismo” ao se referir a determinadas organizações criminosas, ampliando o enfoque de segurança atribuído ao combate ao tráfico internacional.

A estratégia ocorre em meio a uma política mais dura dos Estados Unidos em relação aos cartéis e ao crime organizado no continente americano.

Cooperação militar com os EUA não é novidade

A participação brasileira em exercícios militares multinacionais liderados ou coordenados pelos Estados Unidos tem precedentes.

Um dos exemplos é a Operação PANAMAX, exercício voltado à segurança do Canal do Panamá e à preparação de forças de diferentes países para atuar de maneira integrada.

Em edições anteriores, o Brasil participou ao lado de outras nações das Américas e chegou a exercer funções de comando dentro da estrutura multinacional do treinamento.

As Forças Armadas brasileiras também mantêm diferentes operações e exercícios internacionais para aperfeiçoar a capacidade de atuação conjunta. O Ministério da Defesa afirma que essas atividades servem para testar procedimentos, melhorar a interoperabilidade e preparar as tropas para diferentes cenários de crise.

O que muda para o Brasil

Para o Brasil, a nova articulação coloca o país diante de uma questão estratégica: como ampliar a cooperação internacional no combate ao crime organizado sem abrir mão da autonomia e da soberania nacional.

O país possui extensas fronteiras terrestres e marítimas e enfrenta rotas utilizadas por organizações criminosas para o transporte de drogas e armas. A cooperação internacional pode facilitar o compartilhamento de informações e o combate a redes criminosas que atuam em mais de um território.

Ao mesmo tempo, qualquer atuação militar estrangeira dentro do Brasil depende das regras constitucionais e da autorização das autoridades brasileiras competentes.

Por isso, a participação do país em exercícios e iniciativas multinacionais deve ser diferenciada de uma eventual operação militar estrangeira em território nacional.

Cenário regional chama atenção

O anúncio ocorre em um momento de maior presença dos Estados Unidos em assuntos de segurança na América Latina e no Caribe.

Washington vem buscando ampliar a cooperação com governos da região para enfrentar organizações criminosas e reduzir o fluxo de drogas destinadas ao mercado norte-americano.

Para o Brasil, a questão envolve ainda a proteção de suas fronteiras e o combate ao crime organizado transnacional, especialmente diante da extensão territorial do país e de sua posição estratégica na América do Sul.

A nova força-tarefa e os exercícios militares previstos para a região do Canal do Panamá devem ampliar o debate sobre o papel dos Estados Unidos na segurança do Hemisfério Ocidental e sobre os limites da cooperação militar entre os países.