A investigação sobre as fraudes em descontos indevidos de aposentados e pensionistas do INSS abriu uma nova frente de tensão entre a Polícia Federal (PF) e o gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).

O conflito envolve decisões tomadas pelo ministro, relator do inquérito que apura o esquema, para ampliar o controle sobre a investigação conduzida pela PF. Integrantes da corporação consideram que algumas dessas medidas avançam sobre atribuições da própria polícia e, por isso, o órgão procurou a Advocacia-Geral da União (AGU) em busca de medidas para questioná-las.

A situação acrescenta uma disputa institucional a um caso que já tem forte repercussão política por envolver suspeitas de desvios de recursos de beneficiários da Previdência Social e pessoas ligadas ao meio político.

O que provocou o atrito

Entre as determinações de Mendonça está a exigência de que todos os atos realizados na investigação sejam imediatamente encaminhados ao gabinete do ministro.

Mendonça também determinou que eventuais mudanças na equipe de policiais responsável pelas apurações sejam comunicadas previamente ao Supremo.

Na avaliação de integrantes da PF, as medidas ampliam o nível de acompanhamento do inquérito pelo relator e podem interferir na autonomia operacional da investigação. A corporação busca, por meio da AGU, uma forma de contestar judicialmente essas determinações.

O gabinete do ministro, por sua vez, tem demonstrado preocupação com o ritmo das apurações e com a possibilidade de que informações relevantes não cheguem de forma integral ao processo.

Investigação envolve fraudes em aposentadorias

O caso investiga um esquema de descontos não autorizados em benefícios do INSS. A apuração revelou uma estrutura que teria movimentado valores retirados de aposentadorias e pensões sem autorização dos beneficiários.

A investigação da PF avançou sobre entidades, intermediários e pessoas suspeitas de participação no esquema.

Em julho, a polícia indiciou o ex-presidente do INSS e outros investigados no inquérito. O Ministério Público Federal ainda precisa avaliar os elementos reunidos pela investigação para decidir sobre eventuais denúncias.

Lulinha aparece entre os pontos de maior repercussão

A investigação ganhou dimensão política ainda maior porque passou a envolver Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A PF solicitou medidas relacionadas ao filho do presidente, e Mendonça autorizou a quebra de sigilos no âmbito da investigação.

Até o momento, a existência de investigação ou de medidas judiciais não significa que Lulinha tenha sido condenado ou que tenha sido comprovada participação dele nas fraudes. A apuração ainda busca esclarecer eventuais vínculos, movimentações financeiras e responsabilidades.

O caso, por isso, passou a ser acompanhado de perto pelo meio político, principalmente em razão da proximidade das eleições de 2026.

Mendonça já havia determinado maior controle

A preocupação do ministro com a condução do caso não é recente.

Mendonça é relator tanto da investigação sobre as fraudes no INSS quanto do caso envolvendo o Banco Master, dois inquéritos de grande repercussão política e econômica.

Em maio, informações de bastidores já apontavam que o ministro pretendia acompanhar mais de perto as investigações conduzidas pela PF e demonstrava preocupação com possíveis interferências políticas e vazamentos seletivos durante o período eleitoral.

Em junho, Mendonça também teve a segurança reforçada após uma avaliação interna do STF apontar aumento do risco relacionado à sua atuação nos processos.

PF nega, na prática, que a investigação esteja parada

A tensão ocorre justamente quando a investigação entra em uma fase de análise de grande quantidade de informações.

A PF precisa examinar documentos, aparelhos eletrônicos, registros financeiros e outros elementos recolhidos durante as operações.

O ritmo dessa análise é um dos pontos que provocam preocupação no gabinete de Mendonça.

O ministro quer acompanhar de perto o avanço das diligências, enquanto integrantes da Polícia Federal avaliam que o controle excessivo pode comprometer a dinâmica de uma investigação policial.

A disputa, portanto, não envolve apenas o conteúdo das apurações, mas também quem deve definir o ritmo, os procedimentos e o fluxo de informações do inquérito.

Disputa ganha dimensão institucional

A busca da PF pela AGU representa um movimento incomum e mostra o tamanho do desconforto existente entre setores da corporação e o gabinete do ministro.

A AGU é responsável pela representação judicial da União e poderá avaliar os caminhos jurídicos disponíveis para contestar as determinações.

O episódio coloca em lados diferentes duas instituições centrais na investigação: de um lado, a PF, responsável pela apuração policial; de outro, o STF, que exerce o controle judicial sobre o inquérito.

O desafio é preservar a autonomia das investigações sem afastar o controle judicial previsto no processo.

Caso tem impacto político antes das eleições

A disputa ocorre em um momento especialmente sensível.

As investigações sobre o INSS atingem pessoas ligadas a diferentes grupos políticos e podem produzir novos desdobramentos durante o processo eleitoral de 2026.

Qualquer avanço envolvendo autoridades, empresários ou pessoas próximas ao governo federal tende a ganhar repercussão política.

Por outro lado, também existe preocupação com o uso eleitoral de informações ainda não comprovadas ou de suspeitas que permanecem sob investigação.

Por isso, os próximos passos da PF e do STF deverão ser acompanhados com atenção.

O que deve acontecer agora

A expectativa é que a AGU analise os questionamentos apresentados pela Polícia Federal e avalie se há fundamento para contestar as decisões de Mendonça.

Ao mesmo tempo, a investigação continuará sob supervisão do STF, enquanto os policiais responsáveis pelo caso seguem analisando os elementos já reunidos.

O ponto central agora será definir até onde pode ir o acompanhamento do relator sobre uma investigação conduzida pela PF e como evitar que a disputa institucional comprometa o esclarecimento das fraudes que atingiram aposentados e pensionistas.

Enquanto isso, eventuais responsabilidades criminais continuarão dependendo da conclusão das investigações e das decisões posteriores do Ministério Público e da Justiça.