A Polícia Federal deflagrou, nesta quinta-feira (6), a Operação Heritage para investigar um suposto esquema de desvio de mais de R$ 308 milhões em recursos públicos de Mato Grosso. Entre os investigados está o ex-governador do estado Mauro Mendes.
A operação apura possíveis crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, peculato, lavagem de dinheiro e uso indevido de informação privilegiada. As informações foram divulgadas oficialmente pela Polícia Federal.
Ao todo, foram expedidos 25 mandados de busca e apreensão pelo Supremo Tribunal Federal (STF). As ordens são cumpridas em endereços localizados nos estados de Mato Grosso, São Paulo, Rondônia e Ceará.
Além das buscas, a Justiça determinou medidas cautelares que incluem o bloqueio e a indisponibilidade de bens de investigados até o limite aproximado de R$ 316 milhões.
Também foram autorizadas a quebra dos sigilos bancário e fiscal, a proibição de saída do país, o recolhimento de passaportes e a proibição de contato entre pessoas investigadas.
Investigação envolve acordo entre governo e empresa de telefonia
Segundo a PF, as investigações começaram a partir da análise de um acordo celebrado entre o Governo de Mato Grosso e uma empresa privada de telefonia. A negociação envolvia a restituição de valores relacionados a uma disputa tributária.
Os investigadores identificaram indícios de que a operação financeira teria sido utilizada para viabilizar o desvio de recursos públicos superiores a R$ 308 milhões.
De acordo com a Polícia Federal, os valores teriam passado por uma estrutura formada por fundos de investimento em cascata e pessoas jurídicas interpostas. O mecanismo, segundo a investigação, teria como finalidade ocultar ou dissimular a origem, a movimentação e o destino do dinheiro.
Mauro Mendes é alvo da investigação
O ex-governador Mauro Mendes aparece entre os investigados na operação. Ele deixou o comando do Governo de Mato Grosso em 31 de março deste ano, após renunciar ao cargo para disputar uma vaga no Senado nas eleições de 2026. O vice-governador Otaviano Pivetta assumiu o Executivo estadual.
A reportagem do R7 informou que procurou Mendes para obter um posicionamento sobre a investigação, mas não havia recebido resposta até a última atualização. O espaço permanece aberto para manifestação.
Caso já era alvo de questionamentos
O acordo envolvendo os R$ 308 milhões já vinha sendo questionado antes da operação desta quinta-feira.
O ex-governador Pedro Taques apresentou representações a diferentes órgãos de controle e questionou a legalidade da negociação. Em março, o Tribunal de Contas de Mato Grosso determinou a abertura de investigação sobre o acordo, segundo informações divulgadas pela imprensa local.
O Ministério Público de Mato Grosso também já havia analisado o caso. Em manifestação divulgada em março, o órgão pediu a improcedência e o arquivamento de uma ação popular apresentada por Taques, afirmando que não havia demonstração concreta de ilegalidade ou lesividade ao erário.
A Procuradoria-Geral do Estado, por sua vez, acionou judicialmente Taques para que ele apresentasse provas das acusações feitas contra o governo. O Estado sustentou que o acordo havia seguido os procedimentos legais e que a negociação teria resultado em economia aos cofres públicos.
O que a PF investiga
A Polícia Federal afirma que os fatos investigados podem caracterizar, em tese:
- organização criminosa;
- peculato;
- lavagem de dinheiro;
- crimes contra o Sistema Financeiro Nacional;
- uso indevido de informação privilegiada.
A corporação ressalta que a investigação continua e que outras infrações podem ser identificadas ao longo da apuração.
Até o momento, não há condenação dos investigados. A operação está na fase de investigação e as medidas determinadas pela Justiça têm caráter cautelar.
Entenda o caso dos R$ 308 milhões
O valor investigado está relacionado a um acordo firmado entre o Estado de Mato Grosso e uma empresa de telefonia para solucionar uma disputa tributária.
A negociação resultou no pagamento de aproximadamente R$ 308 milhões, montante que, segundo a investigação da PF, teria sido posteriormente movimentado por meio de uma estrutura envolvendo fundos de investimento e empresas.
O caso ganhou repercussão nacional após denúncias apontarem possíveis vínculos entre os recursos e estruturas financeiras relacionadas a pessoas próximas ao então governador Mauro Mendes. Em depoimento à CPI do Crime Organizado do Senado, em março, Pedro Taques voltou a apresentar acusações sobre a operação e detalhou o caminho que, segundo ele, o dinheiro teria percorrido.
A PF agora busca esclarecer como os recursos foram movimentados, quem participou das operações e qual teria sido o destino final do dinheiro.
Fontes e repercussão
A operação foi confirmada oficialmente pela Polícia Federal, que informou os números de mandados, os estados envolvidos, as medidas cautelares e as suspeitas investigadas.
O caso também repercute no cenário político de Mato Grosso porque envolve um ex-governador que deixou o cargo há pouco mais de quatro meses para disputar uma vaga no Senado.
A investigação, no entanto, ainda está em andamento, e eventuais responsabilidades criminais deverão ser definidas a partir das provas produzidas durante o inquérito e das decisões judiciais posteriores.
