A suspensão das compras de carne brasileira pela União Europeia, confirmada neste sábado (6), pode gerar um prejuízo de US$ 1,8 bilhão por ano ao agronegócio brasileiro, mas não deve garantir o alívio nos preços para o consumidor nacional esperado com uma possível sobra dos produtos de origem animal no mercado interno.
Especialistas ouvidos pelo R7 explicam que a facilidade do Brasil em redirecionar as exportações para a Ásia e os Estados Unidos, somada aos novos custos logísticos e operacionais gerados pela medida, impedem uma queda drástica nos valores praticados pelos açougues.
O economista Hugo Garbe explica que há uma “possibilidade concreta” de o mercado interno absorver parte da produção originalmente destinada à União Europeia, o que, em circunstâncias normais, tenderia a reduzir os preços praticados no país. No entanto, caso o Brasil encontre rapidamente mercados alternativos para os produtos de origem animal, os impactos não seriam relevantes.
“A tendência mais provável não é uma queda abrupta dos preços da carne, mas sim uma acomodação moderada, possivelmente perceptível em determinados cortes e por um período limitado”, avalia.
Segundo Garbe, caso haja uma redução nos preços, ela dificilmente impactaria de maneira substancial a trajetória da inflação brasileira, apesar de a venda de carnes ter “peso relevante” no grupo de alimentação do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo).
“O comportamento do IPCA continua sendo influenciado por variáveis muito mais amplas, como energia elétrica, combustíveis, serviços, política fiscal, taxa de câmbio e expectativas inflacionárias. Assim, mesmo que haja uma contribuição desinflacionária oriunda do setor de alimentos, ela pode ser parcialmente anulada por pressões vindas de outros componentes da economia”, argumenta.
Custos de adequação aos parâmetros globais
Outro fator que dificulta a redução dos preços praticados no país seriam os custos relacionados a uma eventual adequação da produção brasileira aos parâmetros exigidos pela União Europeia. Para o economista João Marcelo Abbud, tal mudança seria positiva por “harmonizar” o padrão da mercadoria exportada mas, por outro lado, encareceria o valor que chega ao consumidor final.
“Esse choque de demanda pode aumentar os custos ao longo da cadeia e, inclusive, causar algumas perturbações em fornecedores que ainda não estão em tal nível de certificação, de sofisticação produtiva em termos de fornecimento de insumos”, ressalta.
Novas rotas de exportação
Com a suspensão das vendas para a União Europeia, a exportação para a Ásia, Estados Unidos, África e Oriente Médio pode ser a alternativa para compensar a perda de US$ 1,8 bilhão com o embargo do bloco.
“O histórico recente sugere que o Brasil possui relativa facilidade para redirecionar exportações para países asiáticos, africanos e do Oriente Médio, destaca Hugo Garbe.
João Marcelo Abbud, por sua vez, destaca o aumento dos custos que será gerado pela busca de novos mercados para a carne produzida no Brasil.
“Será necessário redirecionar rotas, para o mercado norte-americano ou asiático, por exemplo, e também será preciso lidar com a capacidade ociosa de frigoríficos, envolvendo a questão de energia que, por sua vez, também é delicada”, aponta. “Sendo assim, se esse choque for consolidado de fato, poderá sim representar um aumento de custos em toda a cadeia de produção”, completa.
