A divulgação de informações envolvendo o procurador-geral da República, Paulo Gonet, em um relatório da Polícia Federal provocou reações de integrantes do Ministério Público Federal (MPF), que relatam sentimentos de perplexidade e constrangimento diante do episódio.

As informações foram divulgadas inicialmente pela CNN Brasil, que ouviu integrantes do MPF sobre as repercussões do caso. Gonet aparece em mensagens trocadas entre o advogado Ciro Passos e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Segundo o conteúdo divulgado, as conversas fazem referência a uma relação de proximidade entre o procurador-geral e o banqueiro.

Entre os episódios mencionados estão referências a viagens internacionais envolvendo o filho de Gonet, encontros para fumar charutos e consumir whisky, além do compartilhamento de uma fotografia em que aparecem Gonet e Ciro Passos.

A presença do nome do PGR no material da investigação passou a gerar questionamentos entre procuradores, especialmente em relação à necessidade de preservação da independência institucional do Ministério Público.

Reação de Gonet também é questionada

Além das mensagens, outro ponto que provocou críticas foi a velocidade com que Paulo Gonet reagiu ao relatório da Polícia Federal.

Segundo relatos obtidos pela CNN Brasil, o procurador-geral solicitou o arquivamento relacionado ao documento poucas horas depois de tomar conhecimento do conteúdo, embora o prazo disponível fosse maior. A atuação também foi relacionada a pedidos de arquivamento envolvendo denúncias apresentadas por Daniel Vorcaro em depoimento.

Para integrantes do MPF ouvidos pela reportagem, a combinação entre as informações sobre a proximidade com Vorcaro e a atuação posterior de Gonet acabou ampliando o desconforto dentro da instituição.

Nos grupos internos de procuradores, entretanto, o debate estaria limitado por medidas adotadas pela atual gestão da Procuradoria-Geral da República. Fora desses ambientes, segundo os relatos, o episódio vem sendo discutido com maior intensidade.

Debate sobre escolha do próximo PGR ganha força

A repercussão do caso também reacendeu entre integrantes do Ministério Público Federal a discussão sobre a forma de escolha do procurador-geral da República.

Procuradores passaram a defender novamente que o próximo chefe do Ministério Público Federal seja escolhido a partir de uma lista tríplice formada pela própria categoria.

A lista tríplice foi utilizada como tradição antes de 2019, mas deixou de ser seguida quando o então presidente Jair Bolsonaro indicou Augusto Aras para comandar a PGR. Em 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva também optou por Paulo Gonet, que posteriormente foi reconduzido ao cargo.

A proposta defendida por integrantes do MPF é transformar a lista tríplice em uma regra constitucional por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC).

A avaliação entre procuradores é de que a mudança poderia reduzir a influência política sobre a escolha do chefe da instituição e reforçar a autonomia do Ministério Público.

Gonet permanece no cargo até 2027

Paulo Gonet foi reconduzido ao comando da Procuradoria-Geral da República e tem mandato previsto até dezembro de 2027.

O episódio ocorre em meio às investigações envolvendo o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro. O relatório da Polícia Federal que trouxe as referências a Gonet também passou a integrar o debate político e jurídico em Brasília.

A CNN Brasil informou que procurou a assessoria do procurador-geral para obter um posicionamento sobre as informações, mas não recebeu manifestação. Até a publicação da reportagem, Gonet também não havia divulgado nota pública específica sobre sua relação com Vorcaro e Ciro Passos.