O ex-banqueiro Daniel Vorcaro afirmou, em depoimento prestado ao gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que sua nova proposta de delação premiada envolve pessoas ligadas ao atual governo federal.

Segundo informações divulgadas nesta quarta-feira (2), Vorcaro afirmou que a colaboração que pretende apresentar à Polícia Federal não teria como foco o financiamento do filme Dark Horse, produção sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro, nem as relações mantidas com políticos de diferentes grupos.

O depoimento ocorreu em meio ao avanço das investigações relacionadas ao Banco Master e à divulgação de mensagens e documentos apreendidos pela Polícia Federal. O ex-banqueiro está preso e tenta novamente negociar um acordo de colaboração com as autoridades.

Vorcaro afirma que proposta não avançou

De acordo com relatos sobre o depoimento, Vorcaro disse que procurou apresentar informações que poderiam envolver integrantes do governo atual, mas que a Polícia Federal não teria demonstrado interesse em ouvi-lo sobre esse conteúdo.

O ex-banqueiro teria responsabilizado diretamente o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, pelo fato de sua tentativa de colaboração não ter avançado. Essa versão, entretanto, faz parte das declarações apresentadas por Vorcaro e não significa que as acusações tenham sido comprovadas.

A nova tentativa de delação ocorre enquanto investigadores analisam uma grande quantidade de mensagens, documentos e informações extraídas de dispositivos eletrônicos apreendidos durante as investigações da Operação Compliance Zero.

Caso envolve Banco Master e autoridades

O nome de Daniel Vorcaro ganhou destaque nacional após a crise envolvendo o Banco Master e a investigação de suspeitas relacionadas às operações financeiras da instituição.

Nos últimos dias, documentos obtidos pela Polícia Federal ampliaram a repercussão do caso ao revelar contatos entre Vorcaro e autoridades de diferentes instituições.

Entre os nomes citados nas apurações está o ministro Alexandre de Moraes, do STF. Mensagens atribuídas a Vorcaro indicam que o empresário buscava auxílio junto ao ministro em questões relacionadas às investigações e à situação do banco.

A PF também identificou contratos entre o Banco Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. Um dos contratos mencionados nas investigações chegou a valores superiores a R$ 130 milhões. As informações levantaram questionamentos sobre possível conflito de interesses, mas os documentos divulgados não comprovam, por si só, que Moraes tenha praticado crime ou atendido aos pedidos feitos pelo banqueiro.

Dark Horse também está no centro da crise

Embora Vorcaro tenha afirmado que sua proposta de delação não se concentra no financiamento de Dark Horse, o filme continua sendo investigado.

A produção, que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, recebeu recursos ligados ao empresário. Reportagens recentes apontaram novos repasses feitos por Vorcaro à produtora responsável pelo longa.

A Go Up Entertainment, produtora do filme, afirmou que informou à Justiça todos os valores recebidos e que os recursos foram destinados integralmente à produção. A empresa também declarou que a documentação correspondente foi apresentada às autoridades.

O senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente, também aparece no episódio por ter buscado recursos para viabilizar a produção. O parlamentar reconheceu que procurou investidores para o projeto, mas nega irregularidades.

Pressão política aumenta

As revelações sobre as relações de Vorcaro com autoridades e políticos aumentaram a pressão no Congresso e nas redes sociais.

No caso de Alexandre de Moraes, parlamentares da oposição passaram a defender novamente a abertura de um processo de impeachment contra o ministro. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, porém, ainda não estabeleceu data para análise de eventual pedido.

O próprio Alcolumbre citou recentemente o episódio envolvendo Dark Horse ao responder às cobranças por uma decisão sobre Moraes.

Enquanto isso, o presidente do STF, Edson Fachin, afirmou que as revelações envolvendo o caso exigem uma resposta institucional baseada em “serenidade, responsabilidade e firmeza”.

Nova delação pode ampliar crise

A possibilidade de Vorcaro apresentar informações sobre integrantes do atual governo acrescenta um novo elemento à crise política.

Ainda não está claro quais autoridades poderiam ser citadas ou quais fatos seriam apresentados pelo ex-banqueiro. Também não há, até o momento, confirmação pública de que a Polícia Federal ou a Procuradoria-Geral da República tenham aceitado negociar uma nova colaboração com Vorcaro.

Além disso, uma eventual proposta de delação precisa ser analisada pelas autoridades competentes e, caso haja acordo, seu conteúdo terá de ser submetido às etapas legais de validação.

O caso ganhou dimensão ainda maior porque, paralelamente às declarações de Vorcaro, o ex-dono da gestora Reag, João Carlos Mansur, firmou acordo de colaboração com a Procuradoria-Geral da República relacionado às investigações do Banco Master. O acordo ainda depende de homologação.

Repercussão para Alagoas

Embora as investigações estejam concentradas em Brasília e em outros estados, o caso tem reflexos nacionais e interessa diretamente aos alagoanos por envolver instituições que têm impacto sobre todo o país.

As investigações atingem o sistema financeiro, autoridades dos Três Poderes e instituições responsáveis pela fiscalização e aplicação das leis. Qualquer desdobramento envolvendo STF, Polícia Federal, PGR ou Congresso Nacional pode provocar consequências políticas e institucionais em todo o Brasil, inclusive em Alagoas.

Para o estado, o principal ponto de atenção neste momento é acompanhar se as novas informações apresentadas por Vorcaro resultarão em investigações formais, novas operações ou responsabilizações.

Até que isso aconteça, as declarações atribuídas ao ex-banqueiro devem ser tratadas como parte de sua versão dos fatos, e não como prova definitiva contra as pessoas eventualmente mencionadas.

O caso continua sob investigação e novos documentos podem alterar o cenário nas próximas semanas.