A crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos ganhou novos capítulos e passou a provocar, dentro do próprio Itamaraty, um debate sobre os limites entre a defesa dos interesses nacionais e uma eventual politização da política externa brasileira.
O cenário se agravou após o governo brasileiro negar vistos a dois integrantes do Departamento de Estado dos Estados Unidos, em julho, e Washington revogar, no início de agosto, o visto da embaixadora do Brasil nos EUA, Maria Luiza Ribeiro Viotti. A decisão norte-americana ocorreu em meio ao impasse envolvendo a indicação de Daniel Perez para a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília.
Segundo informações levantadas pela CNN Brasil, diplomatas brasileiros ouvidos sob condição de anonimato avaliam que a postura do governo Lula representa uma mudança em relação à tradição de maior pragmatismo do Itamaraty. Para esses interlocutores, o discurso em defesa da soberania nacional passou a ocupar espaço mais destacado na condução da política externa, especialmente às vésperas das eleições de outubro.
Vistos negados a integrantes do governo Trump
Um dos episódios mais recentes ocorreu em julho, quando o Brasil recusou pedidos de visto para Riley Barnes, secretário-assistente do Escritório de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho do Departamento de Estado, e Samuel Samson, secretário-assistente adjunto da mesma área.
De acordo com a versão apresentada pelo governo brasileiro, os dois funcionários pretendiam viajar ao país para uma agenda que poderia colocar em dúvida a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro. O presidente Lula chegou a afirmar que os representantes norte-americanos pretendiam “se meter” na eleição brasileira.
O Departamento de Estado, porém, contestou essa interpretação. Segundo o governo norte-americano, a viagem prevista para o fim de julho fazia parte de uma agenda oficial relacionada a democracia, direitos humanos e liberdade religiosa. A programação também incluía um encontro com Flávio Bolsonaro, embora não haja confirmação pública de que os dois funcionários participariam da convenção nacional do PL.
O episódio não foi o primeiro confronto envolvendo a concessão de vistos.
Em março, o Itamaraty revogou o visto diplomático de Darren Beattie, assessor do Departamento de Estado que pretendia viajar ao Brasil. O Ministério das Relações Exteriores afirmou, à época, que houve omissão e informações incorretas sobre o objetivo da visita.
Beattie participaria de um fórum sobre minerais críticos e também pretendia visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, que estava sob custódia. Segundo o governo brasileiro, o encontro com Bolsonaro não havia sido informado no pedido de visto.
Washington reage e revoga visto de embaixadora brasileira
A resposta mais contundente dos Estados Unidos veio em 4 de agosto. O governo Trump anunciou a revogação do visto de Maria Luiza Ribeiro Viotti, embaixadora brasileira em Washington.
A medida foi apresentada por autoridades norte-americanas como uma reação ao que Washington considera demora injustificada do Brasil em conceder o chamado agrément — autorização formal para que um diplomata estrangeiro possa assumir como embaixador — a Daniel Perez, indicado por Trump para representar os EUA em Brasília.
A decisão provocou reação do governo brasileiro. Brasília sustenta que a análise da indicação de Perez segue os procedimentos diplomáticos e que a divulgação do nome antes da concessão do agrément contrariou uma prática tradicional das relações entre Estados.
A Reuters informou que Perez foi indicado por Trump em 1º de junho e que o governo brasileiro ainda não havia dado a autorização formal necessária para que ele assumisse o posto. O impasse ocorre em um momento de forte deterioração das relações bilaterais.
Itamaraty é acusado de adotar política de governo
O embate também alimentou críticas internas no Ministério das Relações Exteriores.
Segundo a apuração da CNN Brasil, alguns diplomatas entendem que a chancelaria brasileira estaria adotando uma política externa mais vinculada ao governo Lula do que a uma estratégia permanente de Estado. A principal preocupação apontada seria a utilização do conceito de soberania nacional em uma disputa que também tem forte componente eleitoral.
A avaliação, entretanto, não é unânime.
Outros diplomatas ressaltam que o próprio governo Trump teria rompido protocolos tradicionais ao anunciar a indicação de Daniel Perez antes da conclusão do processo de consulta ao governo brasileiro. Também é apontado como fator de tensão o fato de Washington ter reagido à demora brasileira com a revogação do visto da embaixadora Viotti.
A Reuters ouviu fontes segundo as quais o governo norte-americano considera a demora brasileira uma questão grave e adotou a medida contra Viotti como uma forma de pressionar pela aprovação de Perez. Washington, por outro lado, afirma que pretende preservar uma relação funcional com o Brasil e sinalizou que o visto da embaixadora poderá ser restaurado caso o impasse diplomático seja resolvido.
Disputa chega ao período eleitoral
A crise diplomática ocorre em meio à preparação para as eleições brasileiras de outubro e ganhou uma dimensão política ainda maior com a participação indireta de nomes ligados à disputa presidencial.
O presidente Lula tem utilizado a defesa da soberania nacional como um dos principais argumentos diante das pressões de Washington. Do outro lado, Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, tornou-se um dos principais nomes associados ao campo político mais próximo de Trump no Brasil.
Além da disputa diplomática, Brasil e Estados Unidos também enfrentam atritos comerciais. A administração Trump impôs tarifas sobre produtos brasileiros, ampliando a pressão sobre uma relação que já vinha sendo marcada por divergências políticas e econômicas.
O resultado é uma escalada que ultrapassou a tradicional divergência entre governos e passou a atingir diretamente os canais diplomáticos entre Brasília e Washington.
Senado dos EUA confirma indicação de Perez
O impasse ganhou um novo elemento nesta sexta-feira (7), quando o Senado dos Estados Unidos aprovou uma série de indicações feitas pelo governo Trump, incluindo nomes para postos diplomáticos.
Daniel Perez está entre os indicados aprovados pelo Senado para a representação norte-americana no Brasil. A confirmação, porém, não encerra o processo: para assumir oficialmente a Embaixada dos EUA em Brasília, ele ainda depende da autorização do governo brasileiro.
Com a proximidade das eleições brasileiras, a disputa pelo controle da narrativa sobre soberania, democracia e interferência estrangeira tende a permanecer no centro da relação entre os dois países.
O episódio envolvendo os vistos, portanto, deixou de ser apenas uma questão consular e passou a simbolizar uma crise diplomática mais ampla, na qual Brasil e Estados Unidos passaram a trocar medidas de pressão e acusações sobre os limites da atuação de cada governo em assuntos considerados internos.
