A energia produzida nos telhados deixou de ser uma tendência e passou a fazer parte da realidade de milhares de consumidores em Alagoas. O crescimento da geração própria por meio de painéis solares acompanha uma transformação nacional no setor elétrico, mas também começa a impor um desafio: como administrar uma rede que recebe cada vez mais energia de pequenos geradores, principalmente nos horários em que o consumo é menor?

O assunto ganhou destaque nesta semana após o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) determinar, pela segunda vez em 2026, uma redução emergencial na geração distribuída para evitar desequilíbrios entre oferta e demanda. No domingo (23), cerca de 1 gigawatt de geração foi reduzido entre 11h e 13h30. Uma situação semelhante havia ocorrido em junho.

O problema não está na energia solar em si. A questão é que os painéis produzem mais justamente durante o período de maior incidência de sol, enquanto o consumo nem sempre acompanha esse ritmo. Aos fins de semana, por exemplo, a demanda pode cair enquanto a geração fotovoltaica continua elevada.

Quando há mais eletricidade disponível do que o sistema consegue absorver naquele momento, o operador precisa recorrer a mecanismos de controle para preservar a estabilidade da rede.

O que isso significa para Alagoas

Alagoas está diretamente inserido nessa transformação.

Dados divulgados em 2025 pela Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) apontavam mais de 550 megawatts (MW) de potência instalada em geração própria solar no estado, distribuídos em mais de 47 mil conexões. Os sistemas estavam presentes nos 102 municípios alagoanos.

Isso significa que a geração distribuída já não está restrita às grandes empresas ou às áreas urbanas. Ela alcança casas, estabelecimentos comerciais, propriedades rurais e pequenos empreendimentos espalhados pelo território alagoano.

O crescimento é favorecido por uma característica importante do estado: a elevada disponibilidade de radiação solar durante boa parte do ano. Em levantamento divulgado anteriormente, Alagoas chegou a apresentar um dos menores períodos de retorno do investimento para sistemas fotovoltaicos residenciais entre os estados brasileiros.

Na prática, o consumidor instala os painéis, passa a produzir parte ou toda a energia que utiliza e pode enviar o excedente para a rede, dentro das regras do sistema de compensação.

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) explica que a micro e minigeração distribuída permite ao consumidor produzir sua própria eletricidade e utilizar a rede para compensar a energia excedente.

Crescimento que muda a operação da rede

O avanço da geração distribuída representa uma mudança importante no modelo tradicional do setor elétrico.

Durante décadas, a eletricidade foi produzida principalmente em grandes usinas e transportada por longas distâncias até chegar aos consumidores. Com a geração distribuída, parte dessa produção passa a ocorrer no próprio local onde a energia é consumida.

O benefício é evidente: menor dependência da energia comprada da rede, possibilidade de redução da conta de luz e expansão de uma fonte renovável.

O desafio aparece quando milhões de pequenos sistemas passam a produzir simultaneamente.

Segundo informações divulgadas a partir do levantamento apresentado pelo G1, o Brasil já soma aproximadamente 4,6 milhões de consumidores que também são micro ou minigeradores, número equivalente a cerca de 5% do total de consumidores.

Esse crescimento aumenta a necessidade de modernização da rede, de sistemas capazes de administrar a geração em tempo real e de soluções para armazenar a energia produzida durante o dia.

Baterias entram no centro do debate

Uma das alternativas discutidas pelo setor é o armazenamento.

Em vez de toda a energia produzida pelos painéis durante o período de sol ser imediatamente enviada para a rede, parte poderia ser armazenada em baterias e utilizada posteriormente, inclusive no período noturno.

O armazenamento também pode ajudar a reduzir a necessidade de cortes de geração quando existe excesso de eletricidade disponível.

O Brasil, porém, ainda está construindo as regras para ampliar essa tecnologia. Um leilão de baterias previsto para 2026 enfrenta discussões regulatórias e sobre a forma de distribuição dos custos entre os agentes do setor.

Para Alagoas, a discussão tem importância adicional. O estado já aparece entre os locais onde a integração entre energia solar, armazenamento e mobilidade elétrica está sendo testada.

Alagoas também testa o futuro da energia

Em 2026, a Equatorial Alagoas recebeu autorização da Aneel para desenvolver um projeto experimental envolvendo geração solar, armazenamento e veículos elétricos. A iniciativa prevê testar inclusive a tecnologia conhecida como V2G (vehicle-to-grid), que permite que veículos elétricos devolvam energia para a rede.

O projeto coloca Alagoas em uma posição estratégica dentro de uma discussão que vai muito além da instalação de placas solares: a transformação do consumidor em participante ativo do sistema elétrico.

A própria distribuidora também anunciou investimentos em um ambiente de testes regulatórios em Maceió e Marechal Deodoro, com recursos destinados à experimentação de novas soluções para o setor elétrico.

Economia para uns, custo para o sistema

Outro ponto que ganhou força no debate nacional é o impacto dos incentivos concedidos à geração distribuída sobre os demais consumidores.

O marco legal do setor estabeleceu regras de transição para a cobrança pelo uso da infraestrutura elétrica. Consumidores que geram a própria energia continuam utilizando a rede para receber ou enviar eletricidade, mesmo quando produzem grande parte do que consomem.

Especialistas ouvidos na repercussão do tema alertam que os benefícios que ajudaram a acelerar a energia solar também precisam ser avaliados diante dos custos que permanecem distribuídos pelo sistema elétrico.

A Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), por exemplo, reúne recursos destinados a diferentes políticas do setor e é parcialmente financiada por encargos pagos nas contas de luz.

O debate, portanto, deixou de ser apenas sobre instalar ou não painéis solares. A discussão agora envolve quem paga pela infraestrutura, como remunerar adequadamente a rede e como garantir que o crescimento das fontes renováveis aconteça sem comprometer a estabilidade do sistema.

O desafio para Alagoas

Para um estado com forte potencial solar e crescimento expressivo da geração própria, o cenário representa ao mesmo tempo uma oportunidade e um alerta.

A expansão dos painéis pode reduzir custos para famílias e empresas, movimentar o mercado de instalação e manutenção de equipamentos e fortalecer a participação das fontes renováveis na economia alagoana.

Por outro lado, quanto maior o número de sistemas conectados à rede, maior será a necessidade de planejamento, automação, armazenamento e modernização da infraestrutura elétrica.

A tendência é que o consumidor alagoano continue produzindo cada vez mais energia no próprio telhado. O desafio das próximas etapas será fazer com que essa energia seja aproveitada da maneira mais eficiente possível, sem transformar o excesso de geração em um problema para a própria rede que sustenta o sistema.

Repercussão: o episódio dos cortes emergenciais determinados pelo ONS reforça que a expansão da energia solar já alcançou uma escala capaz de influenciar a operação do sistema elétrico nacional. Para Alagoas, onde a geração solar própria está presente nos 102 municípios, o debate ganha dimensão ainda maior.