Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, prepara uma nova estratégia para tentar viabilizar um acordo de colaboração premiada no âmbito das investigações que apuram supostas fraudes envolvendo a instituição financeira.
Depois de duas propostas anteriores não avançarem, a defesa passou a trabalhar em uma terceira tentativa. A ideia, segundo informações divulgadas pela CNN Brasil e repercutidas por outros veículos, é realizar um levantamento detalhado de tudo o que o empresário poderia apresentar às autoridades antes de formalizar uma nova proposta.
A nova estratégia ocorre após a entrada do advogado criminalista Daniel Bialski na defesa de Vorcaro. O profissional passou a atuar ao lado do advogado Sérgio Leonardo, que já acompanhava o caso. A mudança ocorre em um momento de pressão sobre o empresário, que permanece preso no contexto das investigações do caso Master.
Defesa quer ampliar acesso a Vorcaro
Um dos primeiros movimentos da nova equipe foi buscar maior liberdade para conversar com o ex-banqueiro.
Segundo informações divulgadas pela jornalista Clarissa Oliveira, da CNN Brasil, os advogados pretendem ter acesso ao empresário por até seis horas diárias. O objetivo é fazer uma espécie de “debriefing” completo, levantando informações, documentos e possíveis elementos que possam ser úteis em uma eventual colaboração.
A intenção é que a equipe jurídica consiga reconstruir, com Vorcaro, as operações investigadas e identificar quais fatos ainda não são de conhecimento das autoridades.
A estratégia também busca evitar o principal problema apontado nas tentativas anteriores: a percepção de que as propostas não apresentavam informações novas ou relevantes o suficiente para justificar um acordo.
Duas propostas já foram rejeitadas
A tentativa de uma nova colaboração ocorre depois de duas propostas anteriores terem sido recusadas.
Em junho, a Polícia Federal rejeitou a segunda proposta apresentada por Vorcaro. Na sequência, a Procuradoria-Geral da República também se posicionou contra o acordo. Segundo informações publicadas à época, um dos motivos apontados foi a ausência de novidades relevantes para as investigações.
A nova equipe, portanto, trabalha para mudar esse cenário.
Em vez de simplesmente reapresentar o que já foi oferecido, a defesa pretende fazer uma avaliação aprofundada das informações que o empresário possui e verificar se há elementos capazes de acrescentar fatos, nomes, documentos ou detalhes ainda desconhecidos dos investigadores.
Nova proposta seria tratada como um “confessionário”
A orientação dada à defesa, segundo a apuração da CNN Brasil, é transformar a preparação da eventual colaboração em um processo amplo de levantamento de informações.
Na prática, Vorcaro deverá ser questionado detalhadamente pelos advogados sobre as operações do Banco Master, relações empresariais e outros fatos que possam ter relevância para as investigações.
A ideia é identificar previamente o que poderia ser apresentado à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República para aumentar a possibilidade de uma nova negociação.
Isso não significa, porém, que exista acordo em andamento ou que as autoridades tenham aceitado uma nova proposta.
Até o momento, não há confirmação de que uma terceira colaboração tenha sido formalmente apresentada ou aceita pela PF e pela PGR.
Defesa também procura o relator no STF
Outro movimento importante ocorre no Supremo Tribunal Federal.
A nova defesa de Vorcaro pediu uma audiência com o ministro André Mendonça, relator das investigações relacionadas ao caso Master. O pedido é apontado como uma das primeiras iniciativas da nova equipe jurídica desde a mudança na defesa.
A atuação de Mendonça ganhou centralidade no caso após o STF passar a concentrar diferentes frentes da investigação.
Em março, o ministro determinou a prisão preventiva de Vorcaro e de outros investigados após pedido da Polícia Federal. Segundo o STF, a decisão considerou a existência de risco concreto de interferência nas investigações.
O que está sendo investigado
As apurações fazem parte da Operação Compliance Zero, que investiga um suposto esquema de fraudes envolvendo o Banco Master.
O STF já autorizou diferentes fases da operação. Em maio, por exemplo, Mendonça autorizou uma nova etapa da investigação após a Polícia Federal apontar indícios de possível atuação do senador Ciro Nogueira em favor de interesses privados ligados a Vorcaro, em troca de supostas vantagens indevidas.
Em junho, outra fase da operação investigou possíveis relações entre dirigentes do Banco Master e o senador Jaques Wagner. Na ocasião, foram autorizadas buscas e medidas cautelares em São Paulo, Bahia e Distrito Federal.
As suspeitas são investigadas pelas autoridades e não representam, por si só, condenação dos envolvidos.
Nova estratégia aumenta pressão sobre investigação
Uma eventual terceira tentativa de colaboração pode ampliar a quantidade de informações disponíveis para os investigadores e mudar o rumo de determinadas frentes do caso.
Para isso, entretanto, a defesa terá de demonstrar que possui elementos novos e relevantes.
O simples relato de fatos já conhecidos pelos investigadores tende a ter pouco valor em uma negociação desse tipo. Por isso, o trabalho de preparação é considerado decisivo para a estratégia jurídica de Vorcaro.
A defesa agora tenta construir uma proposta que seja diferente das duas anteriores e que possa ser analisada pelas autoridades sob outra perspectiva.
Caso Master continua avançando
Enquanto Vorcaro reorganiza sua defesa, as investigações continuam.
O STF já determinou outras medidas relacionadas ao empresário, incluindo a apuração sobre vazamentos de mensagens obtidas a partir de seus celulares. Em março, Mendonça determinou a abertura de investigação específica para verificar a origem e as circunstâncias desses vazamentos, atendendo a pedido da defesa.
Em outra frente, o ministro determinou que dados obtidos a partir das quebras de sigilos bancário, fiscal e telemático de Vorcaro fossem devolvidos à CPMI do INSS e compartilhados com a Polícia Federal.
O conjunto de medidas mostra que o caso permanece em expansão e envolve diferentes frentes de investigação.
Próximos passos
A nova equipe jurídica deverá concentrar esforços, inicialmente, em ampliar o contato com Vorcaro e organizar as informações que possam eventualmente integrar uma nova proposta de colaboração.
Depois dessa etapa, caberá à defesa decidir se há elementos suficientes para retomar formalmente as negociações com a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República.
Por enquanto, a situação é de preparação.
Vorcaro não tem uma nova delação aceita pelas autoridades, e uma terceira proposta ainda depende de ser construída e, posteriormente, analisada pelos órgãos responsáveis.
O movimento, contudo, mostra que o ex-controlador do Banco Master voltou a apostar na colaboração premiada como uma das principais alternativas de sua estratégia jurídica.
